domingo, 21 de janeiro de 2007
Aqui, sei lá
O objectivo final do programa não anda longe do idiota, o gasto de tempo com os 50 últimos dentro dos 100 torna-se uma inutilidade folclórica, oesquema de construção da votação é um lugar demasiadamente comum, mas os debates e as argumentações cabem já no interessante e a missão de fazer chegar facilmente a História é quase brilhante.
Quem terá sido, enfim, segundo o meu critério, o português que melhor ajudou a nação e o presente de nós todos, por especial mérito e efectivo esforço, e não por casual "arte" ou um mero empenho com bons ventos, é coisa do mais complicado que há.
Quanto ao aborto, a minha decisão não será perfeitamente absoluta e inabalável, se bem que os (longos) tempos de reflexão e hesitação terão já passado eventualmente. Já votei "Sim" a pergunta idêntica (parecida, pelo menos).
Não conto agora não votar "Não".
domingo, 14 de janeiro de 2007
Dizer sim ao "Não"
É respeitável quem tenda para votar "Sim" por se centrar essencialmente neste ponto. É muito respeitável quem leve esta conclusão à convicção por solidariedade com os que efectivamente não têm, ou muito dificilmente criarão, condições para educar uma criança com meios satisfatórios. Pensamento prático e solidário, sem dúvida, se bem que não faça sentido mudar uma lei pelo simples facto de que não se consegue fazê-la cumprir.
Todos os demais argumentos invocados pelo "Sim" são facilmente desmancháveis.
Mas será que o País que queremos é a vivência dos males menores? Será que a resolução pelo caixote do lixo dos dramáticos casos de aborto, que também levam à boleia todos os outros casos de simples inconveniências, nos levam a criar um espírito de exigência para com os nossos governantes e os nossos concidadãos? Será que é verdadeira utopia obrigar o Estado a encontrar melhores soluções para questões tão importantes como esta?
Que não restem ilusões, quem vota "Sim", vota pelo conformismo, pelo mal menor e pela responsabilização da própria sociedade perante situações sociais que caberiam ao Estado.
Mas, no cenário actual, o voto de protesto, de inconformismo e de exigência é o do "Não"
Votar "Não" significa obrigar os decisores a despenalizar as mulheres que abortam, separando questões que nunca deveriam ser misturadas no referendo. E não tenhamos dúvidas que a actual maioria de esquerda levaria, de imediato, a que um projecto-lei desta natureza fosse votado, e aprovado quase unaninemente.
Votar "Não" significa forçar o actual governo, e os que se seguem, a finalmente investir, de forma conveniente e em força, em informação, em educação sexual no ensino e em planeamento familiar com resultados. Aqui, estaremos sempre todos de acordo, que o principal será sempre prevenir e portanto accionar estas políticas informativas e formativas, o que, evidentemente, com aborto livre será muito mais difícil. (Também estaremos concordantes em que já muito se devia ter feito, de há 8 anos até agora, por parte de todos quanto puderam decidir, tenham eles votado "Sim" ou "Não", mas cabe-nos a todos exigir que, tirando partido da nossa maior maturidade democrática e cívica, tais erros não se repitam.)
Votar "Não" significa ainda não fechar a porta a que o Estado repense melhores formas de resolver os dramas das gravidezes rejeitadas. Se existe via para que o Estado venha a assumir as responsabilidades sociais, que são a sua primordial razão de existência, não será votando "Sim".
Eu sonho com um País cujos governantes decidam que devem convencer as mães que não querem ter um filho e as ajudem a fazê-lo crescer. Eu desejo um Estado que, no limite, se encarregue pela educação de um bebé indesejado e o leve até à idade adulta, pela adopção ou pela inserção numa instituição social ou religiosa, como faz se o bebé for abandonado num hospital após nascer. Eu pretendo estar numa sociedade que não distinga os direitos de quem tem 9 meses de vida ou apenas 9 semanas. Eu exijo a utopia da mobilização do verdadeiro espírito humanista português, que provavelmente ainda temos, no apoio a todos quantos sejam afectados por reais dificuldades de vivência e de sobrevivência.
Eu não vejo realmente justiça senão passarmos pela solidariedade para com TODOS. Para com os que não podem MESMO e para com os que DE CERTEZA querem viver.
Prefiro um dia morrer com estas utopias do que ir vivendo sem protestar por um País que sempre alinha pelos males menores.
sábado, 13 de janeiro de 2007
Falácia pública
Mas se tem havido estratégia de argumentação falaciosa, ela provém da tentativa de fazer crer que vamos decidir apenas pela manutenção da criminalização ou pela descriminalização das mulheres que abortam.
É evidente que, tal como nos foi imposto, também é disso que vamos tratar, muito embora fosse desejável que as questões pudessem ser colocadas separadamente. E aí, não é preciso ser-se competente vidente para sugerir que seria esmagador o "sim" à descriminalização das abortadoras e que seria claro o "não" ao livre aborto (e à consequente manutenção da criminalização dos outros actores, médicos e afins).
Vejamos a expressão das contradições que se estão a gerar nos cidadãos - sondagem Público/ TVI/ RCP/ Intercampus, de 12/01/2007, por voto em urna, conforme boletim do referendo, a 1525 indivíduos:
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"
SIM - 60,1%; NÃO - 28,6 %; Não vota/não sabe/não responde - 11,3%
Simulação dos resultados após distribuição: SIM - 67%; NÃO - 33%
Mas espantemo-nos com os resultados a outra pergunta-chave, pelo mesmo sistema, aos mesmos 1525 indivíduos:
"O aborto deveria ser autorizado em situações em que a mãe não deseje ter um filho?"
SIM - 43%; NÃO - 45%; Não vota/não sabe/não responde - 12%
Simulação dos resultados após distribuição: SIM - 48,9%; NÃO - 51,1%
Confusão, sim ou não???
Por algum motivo, o texto da pergunta foi aprovado pelo Tribunal Constitucional por 7 votos contra 6.
sexta-feira, 12 de janeiro de 2007
Mão de esperança ou a foto do século
U.S. Journal, 1999A foto é de um feto de 21 semanas, cuja mãe estava a ser operada pelo cirurgião Joseph Bruner.
Foi diagnosticada ao bebé “coluna vertebral fissurada” e não teria hipóteses de sobreviver, a não ser que fosse operado ainda dentro do útero da mãe.
A mãe, Julie Armas, é enfermeira obstetra em Atlanta. Dessa forma tomou conhecimento do inovador procedimento cirúrgico do Dr. Bruner, que exercia no Vanderbilt University Medical Center, em Nashville. O médico interveio através do útero, por uma abertura, tendo efectuado uma pequena incisão para operar o bebé. Quando Dr. Bruner terminou a cirurgia ao feto, este estendeu a sua pequena mão pela incisão e agarrou com firmeza a mão do cirurgião. O Dr. Bruner disse que quando viu o seu dedo agarrado, esse foi o momento mais emocionante da sua vida, e por um instante, durante o procedimento tudo ficou totalmente imóvel. O fotógrafo capturou esse acontecimento impressionante com perfeita nitidez. Os editores nomearam a foto “hand of hope” ("mão de esperança").
O texto da manchete explica as fotos a seguir:"A pequena mão do feto de 21 semanas, Samuel Alexanders Armas, emerge do útero de sua mãe para agarrar o dedo do Dr. Joseph Bruner, como se estivesse agradecendo ao médico pelo dom da vida."
"A mãe do pequenino diz que eles "choraram durante dias" quando viram a foto. Ela disse: "A foto lembra-nos que a minha gravidez não tem a ver com deficiência ou uma doença, mas sim com uma pequena pessoa."
A operação foi 100% bem sucedida. Samuel nasceu com perfeita saúde no dia 2 de Dezembro de 1999.
domingo, 7 de janeiro de 2007
Egoísmo ou sacrifício
Enterrá-lo enquanto não pode trazer grandes memórias é egoísta. Não tem essencialmente nada que ver com o altruísmo dos animais fêmeas que matam as crias nascidas quando o instinto lhes diz que não terão bons meios de sobreviver.
No nosso País, já não deverá haver cidadão que não conheça a origem da procriação, mas é temível que a nossa consciência cívica média não esteja ainda preparada para saber ler convenientemente os resultados de uma lei "Sim" (os países menos evoluídos, cívica e culturalmente, viram na mudançada lei os mais brutais aumentos no número de abortos).
É deprimente que a lei convide uma mãe a matar um bebé em gestação, em vez de a convidar a gerá-lo mais 6 ou 7 meses, e depois entregá-lo a quem lhe possa fazer bem, seja o pai, uma outra família, uma outra organização. Dar-lhe o direito de usar o caixote do lixo para se esquecer, e de evitar vir a ser confrontada com uma existência confrangedora, não estaria mal se não estivesse em causa uma vida, ou uma pequena forma de vida. Assim é irresponsável. Aliás, não foi sem a sua colaboração activa, com maior ou menor grau de negligência, que se gerou uma gravidez.
É abominável que o Estado se demita de directa ou indirectamente procurar dar um destino de vida a uma criança não desejada num dado momento (com melhores políticas de apoio à mãe, estimulando a sociedade a uma maior cultura de solidariedade, ou em alternativa, por exemplo, avaliando as condições de responsabilização do pai e a vontade de outros familiares, induzindo a adopção por outro casal, permitindo a intervenção de uma instituição, etc..) em vez de financiar uma pequena verba para se ver livre de um futuro cidadão que lhe pode dar um bocado de trabalho se nascer.
Não dar mais opções a uma cidadã que, num período curto de reflexão, entenda que não está disposta a educar uma criança, ou não a obrigar a pelo menos trazê-la ao mundo (já que nada nem ninguém pode fazer essa parte por ela), é cruel.
sábado, 6 de janeiro de 2007
Porque Não
Más razões ou não-razões para o "Sim", há muitas. Boas razões há 2:
1- Haverá sempre abortos provocados, por isso que se dêm boas condições para a sua realização
2- Existem gravidezes indesejadas que, se forem levadas até ao fim, para além de causarem fortes transtornos sociais, profisisionais ou económicos às mães, podem não permitir que a criança se desenvolva em boas condições sociais e económicas
Para o "Não", também há várias más razões e não-razões. Mas boas razões, encontrei 32:
1- Porque não se pode restringir a propriedade de um embrião a quem o gera, ele é sobretudo dele próprio, do País e do mundo também
2- Porque não é bonito resolvermos as dificuldades matando algo ou alguém
3- Porque não existe magia maior do que um ser humano em gestação
4- Porque não se pode negar a um ser tão vulnerável a única protecção que o País lhe pode actualmente dar
5- Porque não temos outro remédio na vida, senão assumirmos os contratempos e arcarmos com os nossos erros, sobretudo quando estão em causa altos valores
6- Porque não é razoável que o Estado financie abortos em vez de trabalhar em políticas sociais que melhor apoiem quem mais precise para fazer crescer uma criança
7- Porque não é correcto que o Estado se demita de ajudar um bebé não nascido até à sua idade adulta, quando o faz com um bebé vivo abandonado num local público
8- Porque não é legítimo considerar que a vida pode ser destruída, por qualquer razão, com 10 semanas, e não se já tiver 11, 12 ou 15
9- Porque não é definitivamente a mesma coisa o uso de métodos contraceptivos, para evitar o aparecimento de uma vida, ou acabar com ela
10- Porque não está proibido, na actual lei, que se realize o aborto provocado quando está em causa a saúde da mãe, uma má-formação do embrião ou uma gravidez por violação
11- Porque não é a actual lei do aborto um verdadeiro problema nacional, mas sim o nível de vida de muitos portugueses
12- Porque não existe nenhum estudo que aponte claramente que percentagem de casos lidam com condições sócio-económicas realmente impróprias e, por outro lado, quantas são as intenções de aborto motivadas por simples constrangimento sociais ou de progressão profissional
13- Porque não se iria permitir, pela lei proposta, o direito do pai se responsabilizar pela criança após nascer
14- Porque não está sequer consagrada, nessa nova lei, a possibilidade de a criança ser acolhida por uma outra família, uma igreja ou uma instituição social pública ou privada
15- Porque não faz falta em Portugal nenhum tipo de incentivo à redução natalidade, estando o País a envelhecer
16- Porque não está ainda tudo feito em matéria de informação preventiva, de planeamento familiar, de educação sexual no ensino e de fomento de uma cultura de solidariedade na sociedade
17- Porque não há actualmente nenhuma portuguesa que não possa tomar a pílula abortiva, do "dia seguinte"
18- Porque não existe quem possa garantir que a mudança da lei não resulte num brutal aumento dos abortos em Portugal, à semelhança do sucedido noutros países ou pior ainda
19- Porque não ficará o País fica mais moderno e próspero por ter uma lei do aborto mais liberal e europeia
20- Porque não faltam lugares no mundo em que vigora a liberalização e onde já se discute se a lei deve voltar a proibir o aborto forçado, como em Inglaterra ou na Alemanha, ou até já se referenda o regresso à lei antiga, como em certos estados americanos
21- Porque não faz nenhum sentido repetir o mesmo referendo passados 8 anos, só porque o Não ganhou por poucos votos e o País estar numa “maré de esquerda”
22- Porque não é o julgamento de mulheres a questão central do referendo, bastando o Parlamento pretender descriminalizar as abortadoras, para resolver esse detalhe
23- Porque não há uma única mulher condenada por aborto, muito poucas foram julgadas e as que foram tinham gravidezes bem mais evoluídas do que 10 semanas
24- Porque não é mais falacioso pensar que se pode ir abortar a Espanha do que decidir mudar a lei só porque haverá sempre quem a viole
25- Porque não há garantia para ninguém de que o trauma causado por um aborto não seja maior do que ajudar a dar um destino de vida a uma criança que não era desejada à partida
26- Porque não sabemos nunca se o português que estamos a permitir matar não poderá ser amanhã um compatriota de quem todos nos possamos orgulhar, útil ao País ou que simplemente faça a felicidade de outros e a dele próprio
27- Porque não conseguimos nunca analisar as coisas tão claramente “a quente” e haverá sempre um sério risco de simplesmente nos arrependermos de algo grave que não podemos corrigir
28- Porque não há muitos sacrifícios feitos por fortes causas que a vida que não nos retribua de algum modo
29- Porque não devemos fazer aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem a nós (catolicismo à parte)
30- Porque não é sério perguntar aos portugueses “concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez…?” quando está efectivamente em causa “concorda com o fim de uma gravidez por qualquer motivo…?”
31- Porque não é correcto que o Estado induza na sociedade uma “cultura laxista" ou uma "cultura de morte”, sobretudo quando tem consciência de que não pode accionar outras vias eficazes de as minimizar, demitindo-se de fazer mais para proteger um cidadão em potencial, só porque entende que essa sua protecção pode ser desrespeitada por alguns e por haver dificuldades em puni-los.
32- Porque não há dúvida de que, na dúvida, se devem deixar as coisas estar como estão
sexta-feira, 5 de janeiro de 2007
Interrupção???
In Porto Editora, Dicionário da Língua Portuguesa: "INTERRUPÇÃO - s. f., acto ou efeito de interromper; paragem; suspensão; reticência; aquilo que se interrompe; (Do lat. interruptióne-, «id.»)
Por definição , só se interrompe aquilo que possa ser retomado. Mas a Vida será talvez a coisa em que menos isso pode suceder. Uma gravidez pode, em cada momento, prosseguir ou simplesmente acabar.
Interrupção? IVG? Importam-se de repetir?
segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
10 semanas
Não entremos numa vaga de exibir fotos de bebés ensaguentados e desfeitos depois de lhes ter sido cortada a vida, nem de publicar poemas sobre os diálogos imaginários entre um embrião indesejado e a sua mãe prestes a rejeitá-lo.Mas tenhamos uma ideia de como é um bebé com 10 semanas, através de um excerto do excepcional documentário recente do National Geographic:
http://apfn.ficheirospt.com/documentario/10semana.wmv
sábado, 30 de dezembro de 2006
Gandhi verdade
Mahatma Gandhi
quarta-feira, 27 de dezembro de 2006
Antes assim do que sim
Seria bom, antes de mais, deixarmos certas patéticas ideias de lado, como os eufemismos que resultam em elegantes siglas como IGV ou conotar a opinião de cada um com questões religiosas ou políticas. Aqui, esquerda e direita nem deveriam ter posições definidas, até porque boa parte das suas doutrinas se contradizem com vários argumentos invocados.
Foi exactamente, aliás, a própria politização da problemática que levou ao primeiro dos equívocos quanto à consulta de Fevereiro – os cidadãos a quem, durante mais de oito séculos, só por duas vezes lhes foi permitido opinar sobre questões que não sejam a de escolher representantes, vão ser obrigados a repetir uma resposta à primeira das perguntas! Não haverá outras matérias igualmente importantes para que os portugueses se pronunciem, a começar provavelmente sobre que mecanismos podem ser utilizados para convocar um referendo? Será completamente legítimo que só quando os governantes ou o Parlamento decidem colocar perguntas concretas aos portugueses é que estes devem decidir? Não seria mais pertinente se se aproveitassem os enormes custos de uma consulta referendária para se interrogar os cidadãos sobre assuntos que nunca antes lhes foram colocados como a pena de morte, a eutanásia, a legalização da prostituição ou do comércio de drogas, o “casamento” de homossexuais ou as regras para naturalização de estrangeiros, em vez de lhes atirar com a mesma pergunta ao fim de 8 anos? Ou matérias políticas como o regime semi-presidencial, a república versus monarquia, os meios de alteração da Constituição ou grandes polémicas da ordem do dia como a vontade em pagar o aeroporto da Ota, o TGV, ou as SCUT’s através de portagens ou dos seus impostos?
A primeira razão para votar “Não” seria a de demonstrar que os decisores deveriam ter mais respeito pelo processo referendário e pela voz expressa pelos compatriotas, em vez de o usarem essencialmente como instrumento político.
Digo-o com o à-vontade de quem votou “Sim” no referendo de há oito anos. Nesse momento, comoveram-me sobretudo os argumentos de que sempre se verificariam abortos forçados, qualquer que fosse a lei, e os dramas de alguns casos mais próximos de gravidezes indesejadas. Hoje em dia, não tenho qualquer veleidade em admitir que não foi necessário ter sido pai para ter mudado de opinião.
Entendo, acima de tudo, que não devem existir posições acaloradas, sejam elas realmente radicais ou meramente firmes, pois a delicadeza e a complexidade do dilema são tamanhas, que é forçoso admitir que a opção será sempre por um mal menor. O que não quer dizer, contudo, que se arrume a questão com um mero “cada um faça o que entender”.
Poderá ser um pouco falacioso até pensar que, como sempre existirão abortos voluntários, a lei deve protegê-los. Mal de um país se, confrontado com a impotência de fazer cumprir a sua legislação, resolva modificá-la no sentido de permitir a sua desobediência. Assim, seria óbvia, por exemplo, a legalização da prostituição ou a permissão da apresentação de falsas despesas no IRS e no IRC, pois jamais um rigoroso controlo das leis actuais possibilitará que a generalidade dos cidadãos as respeitem. Tenhamos presente que a legislação deverá sempre obedecer a premissas normativas, mas também orientativas e, desejavelmente, informativas.
A outra grande questão, que habitualmente o “Sim” utiliza, prende-se com as dificuldades sociais e económicas que algumas mães acidentais teriam para educar e fazer crescer o indesejado filho. Aqui, corremos o risco de tomar a nuvem por Juno, pois não há autoridade alguma que tenha na sua posse dados estatísticos fiáveis sobre a precariedade das envolventes sócio-económicas de cada uma destas eventuais mães. Intuitivamente, arrisco-me a achar que a esmagadora maior parte dos casos que resultam em abortos provocados em Portugal têm como motivo simples constrangimentos sociais, seja por falta de coragem de confrontar a família, seja de assumir a gravidez e a educação da criança perante uma moldura social mais vasta. Aos restantes casos, será legítimo questionar: quantas situações graves e indesejadas somos todos forçados a aceitar, ao longo da vida, e com elas conviver esforçadamente? E quantas delas, sendo resolúveis, não o fazemos sem recorrer necessariamente à via mais fácil? E, mesmo naquelas em que baqueamos, ao tomar medidas fortes e irreversíveis, quantas vezes não nos arrependemos? Lembremo-nos contudo que não estamos a falar de algo que tenha a mesma importância do que a opção por um filme ao serão, nem o local onde passar o Natal. Bom, mas admitamos que, mesmo assim, deverão sobejar algumas situações em que aquele pequeno ser humano, ou, se preferirem, o potencial cidadão, não teria condições familiares minimamente dignas para progredir na caminhada da vida. Então e o Estado, que deverá fazer-lhe? Facilitar o corte de todas as possibilidades de sobrevivência ou responsabilizar-se pelo seu crescimento e educação até à idade adulta, tal como age perante um bebé abandonado num hospital público?
As boas razões para preferir “Não” ainda serão algumas mais, para o “Sim” também as há, mas não se pode deixar de apontar a posição covarde que o Estado provavelmente virá a assumir, ao tolerar e financiar abortos artificiais em vez de se responsabilizar pelos infortúnios ou leviandades dos seus cidadãos, como faz em tantas outros domínios, e investir ainda mais em informação preventiva e formação apropriada, dado que, não sendo Portugal já propriamente um País de gente tão iletrada que ignora como se procria, ainda não se vê uma disciplina de Educação Sexual na escolaridade obrigatória.
Acabo, pois, por tranquilamente desejar que as intenções de legalizar a morte medicamente assistida do embrião sejam, neste referendo, de novo abortadas.
domingo, 24 de dezembro de 2006
Compaixão Universal
"Um ser humano faz parte do todo a que chamamos universo [uni-versum, uma volta], uma parte limitada no tempo e no espaço. A experiência que tem de si mesmo, dos seus pensamentos e sentimentos, é a de algo separado do resto, uma espécie de ilusão óptica da consciência.
Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e ao afecto por algumas pessoas que nos são mais próximas. A nossa tarefa deverá ser a de nos libertarmos desta prisão, alargando o círculo da nossa compaixão de modo a abranger todas as criaturas vivas e a totalidade da natureza na sua beleza."
Albert Einstein
quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
Feliz bacalhau e prósperas batatinhas
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
Golficídios
Com poucos dias de intervalo, da Ásia para o Ocidente, chegam tenebrosas notícias de barbáries cometidas a golfinhos:1 - O golfinho branco, conhecido orientalmente há milhões de anos como o baiji, e que apenas existia já no rio chinês Yangtze, foi extinto
(http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/12/13/AR2006121302039.html?nav=hcmodule)
2 - Do Japão, divulgam-se imagens de práticas de chacina em massa a populações de golfinhos (esta ainda é mais chocante: http://www.glumbert.com/media/dolphin)
Quando a força cultural permite tamanha tolerância a estes factos, será realmente xenófobo ter sérias restrições de confiança para com estes povos?
domingo, 17 de dezembro de 2006
VASCONCHEQUES...
O salário mensal do Presidente da ERSE é de 18.000 euros. Tal com os restantes Administradores demissionários, salvaguarda apenas 12.000 euros por mês durante 2 anos, após abandono do cargo.
Se bem que os estatutos da ERSE não determinem naturalmente os valores das remunerações, nos termos do seu artigo 28º " os membros do Conselho de Administração estão sujeitos ao estatuto do gestor público em tudo o que não resultar dos presentes estatutos.”, estando assim imunes às normas aprovadas em Conselho de Ministros, no dia 19 de Outubro deste ano, onde se introduzem tectos de remuneração e se limitam regalias dos gestores de organismos públicos.
Bom Natal, caro Jorge!
terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Quem serão os próximos? Chavez? Kim Jong-Il? Ahmadinejahd? George Bush III?
Pinochet foi a enterrar. Fidel ainda não.
Aqui também, Fidel não perdeu. Podem ter ido dar a notícia da morte de Pinochet ao cadáver de Fidel, mas a notícia da morte de Fidel será dada à lápide de Pinochet.
De resto, quem ganha e quem perde no "campeonato" dos ditadores sanguinários? A barbárie tem unidades? Os métodos de eliminação dos inimigos políticos têm graus? Claro que assim fosse, já se teria inventado o facinorímetro.E mesmo se o número de mortos fosse a fiel medida do nível de sanguinarismo, teríamos muita dificuldade em colocar, na posição certa do ranking, Estaline, Hitler, Gengis Khan, Napoleão, Júlio César, Mao-Tsé-Tung, quanto mais Fidel ou Pinochet.
Borat Desilusyev
Depois de me entusiasmar com múltiplos artigos que muito elogiavam as qualidades de Sasha Cohen e o intelectualmente afinado humor do filme "Borat", consegui finalmente assistir a ele, tendo ficado com a ideia de que o comediante britânico perdeu uma brilhantíssima oportunidade de fazer uma longa metragem histórica. A ousadia com que se expôs a tantas cenas provocantes, que supostamente fizeram do seu filme uma sucessão de "apanhados", de legitimidade duvidosa aliás, poderia, pelo menos, ter sido bem melhor explorada no sentido de colocar a nú tantas ridicularias da sociedade ocidental, em vez de se ter concentrado em puxar, para o campo do hilariante, o "atraso" que certos países do Leste Europeu, como o Cazaquistão, ainda têm sobre os que produzem e realizam cinema internacional. Quando digo "atraso", refiro-me, tal como Borat aponta, ao nível económico, social e judeu. Foi pena. Chenquieh!
domingo, 10 de dezembro de 2006
Mau Maria...
O déjá vu parece tanto que faz lembrar imediatamente, mas à nossa escala e em versão soft, os contributos de Lady Di para com a causa anti-minas nos meninos de africanos ou o cartão de sócia da Cruz Roja de Reina Sofia.
Um dedinho de um bom Gabinete de Comunicação é sempre bem vindo...
O valor da palavra
Em artigo do último Tabu/Sol intitulado "O valor da peseta", Paulo Portas descreve um dos factores que tem levado Espanha a ser o que Portugal não se importava de ser também - a "quente" questão da boa e da má moeda, leia-se, a qualidade dos políticos que influenciaram decisivamente a história recente dos dois países.sexta-feira, 8 de dezembro de 2006
As 7 Verdadeiras Maravilhas Nacionais
Queremos agora partilhar os resultados:
1. Monumento Cutileiris Fallus do Parque Eduardo VII, na capital da Nação
2. Torre habitável Coutinho, em Viana do Castelo
3. Cordilheira de contrução litoral, na Costa de Verde e Costa de Prata
4. Estátua de Sua Entidade Reverendíssima Alberto Jardim, Funchal (ainda em projecto)
5. Raras espécies de flora (erves daninias verdis), no interior do Castelo de Leiria
Ca ganda alheira!

Confesso que naquele momento fui perturbado por outra razão não televisiva e, com pena, não consegui escutar os largos minutos de entrevistas a atletas, treinadores e dirigentes, que provavelmente terão adiantado explicações para a escassa presença de assistência.
Mas também me sinto intrigado por esta deficiência de público.
Só me ocorre que possa ser por estar um frio de rachar em Mirandela e não deixarem o público nas bancadas jogar ping-pong para aquecer.
Enfim, pelo menos, pensemos que a assistência seria por certo ainda bem menor se lá estivesse a decorrer o Campeonato Palestiniano de Minigolfe para Tetraplégicos.
BOM, ASSIS TÁ BEM...
Ponto 1 - Imagino que Pinto Monteiro não vai mandar retirar os pontos conquistados pelo Benfica por esta ilegalidade do CJ. Mas creio que, pelo menos, dará ordens aos conselheiros para, como sua própria punição, jogarem alternadamente pela vez do Nuno Assis enquanto dura o resto da sua suspensão.
Ponto 2 - Quando o CJ arquivou o processo e evitou estes 2 meses de castigo ao Assis, agarrou o Presidente LFV nos microfones e gritou que iria pedir indemnizações pelos 4 meses que durou a suspensão até à altura, mas depois permaneceu mudo e quieto... Provavelmente não o fez por distracção ou falta de tempo.
Ponto 3 - O vice de LFV Sílvio Cervan está indignadíssimo com este episódio e promete que o Benfica tudo fará para mostrar a real verdade dos factos e para proteger o homem e o atleta.
Para resolver a primeira parte do problema de Cervan, aconselha-se a interpor um pedido de acusação do procurador Pinto Monteiro ao juíz Baltazar Garzón.
Para a segunda metade da consternação, e considerando que o homem e o atleta são a mesma pessoa, talvez isso se resolva com uma oração ao S. Francisco homónimo...
terça-feira, 5 de dezembro de 2006
amigos para siempre

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
Até amanhã, Camarate
Mais um ano passa com a convicção da maioria dos portugueses sobre a tese de atentado, mesmo sem "pseudo-novidades" confissionárias de autoria da bomba.
Mais um ano passa com as interrogações de uns tantos sobre quem teria mandatado o crime.
Mais um ano passa com a indignação de alguns pela impotência da Nação em levar o caso a julgamento.
Mais um ano passa com as dúvidas de um ou outro cidadão sobre como seria isto tudo com ambos vivos.
Quantos anos passarão para Portugal voltar a ter um Sá Carneiro e um Amaro da Costa?
domingo, 3 de dezembro de 2006
Ó Vladimir...!

Daí que me senti na obrigação de aqui divulgar a carta que lhe remeti na passada semana, pois isto agora já começam a ser mortes a mais, e há que ter o realismo de assumir que transcendeu o discreto núcleo de 2 ou 3 pessoas que estavam a par dos assuntos.
Caro Vladimir,
Desculpa, antes de mais, por estar a tratar-te tão formalmente, pois entendo que o conteúdo desta carta é demasiado sério para me dirigir a ti simplesmente por Vladi, como é habitual.
O episódio do Litvinenko, com pistas deixadas em aviões, em lençóis de hotel, em copos de restaurantes e em amigos italianos foge de todas as regras que a nossa empresa de consultadoria te passou, a ti e aos teus serviços, nas diversas consultas e acções de formação que demos até 2004, altura em que suspendemos a colaboração por achares que já não havia mais fundos vindos dos petro-negócios, para contratar consultores internacionais como nós.
Ó Vladimir, passaste imune em Setembro ao tiro que liquidou o vice-presidente do Banco Central da Rússia, que tanto te consumia a alma com aquela incómoda historinha da transparência no sistema bancário.
Ó Vladimir, talvez te tenhas também safado, em Outubro, daquela outra morte da jornalista que te massacrava com artigos de opinião sobre a guerra da Chechénia e sobre o teu estilo de governação.
Ó Vladimir, se calhar ainda te livraste de que te caísse em cima o dedo da acusação sobre o enusitado falecimento do teu infiel antigo primeiro-ministro Egor Gaydar, intrigantemente adoecido após uma singela viagem à Irlanda..
Mas, meu caro Vladimir, esta outra teatralização do ex-espião do KGB que sucumbiu ao polónio-210, desculpa que te diga, foi mesmo mal feitinha... Tanto folhetim, tantas cenas mal explicadas que passam de um dia para o outro, tantos testemunhos e confissões, até me faz lembrar uma telenovela infanto-juvenil que passa cá em Portugal, em que entra uma menina de saias às flores, uma bruxa má e mais uma cambada de bananas nacionais e estrangeiros.
Então em vez de mandares espetar-lhe um bom par de bananos na nuca ou largar um discreto piano de cauda quando ele fosse a passar em baixo de um qualquer edifício de Londres, deixas que o caso seja resolvido com substâncias radioactivas??? Não te lembraste de guardar uns rublos para renovar o plano básico de acções de formação dos agentes do KGB, com a inclusão de um curso de "Matança Discreta e Sem Deixar Rastos - módulo avançado" e um outro mais simples como "ABC dos Assassínios Rápidos Para Não Deixar Falar as Vítimas"?
Se tinha de ser mesmo uma liquidação radioactiva, lembrassem-se pelo menos de contratar um marginal dos subúrbios londrinos para lhe enfiar um transístor a pilhas pelas amígdalas abaixo! Ou então levá-lo para uma sala deserta e deixá-lo umas horas a ouvir a Rádio Festival ou o programa da manhã da Renascença!!!
Só tenho uma palavra para isto tudo: enusitado!
Por falar em enusitado, se isto tudo se tivesse passado nos Estados Unidos, caía o Carmo e a Trindade (quero dizer, Manhattan e o Empire State Building) e chamavam logo burro ao Bush, que é coisa que nunca ninguém se lembrou de fazer até agora.
Por isso, apelo, investe qualquer coisinha do teu orçamento de 2007 em mais formação para o pessoal do Kapa.
Continuando ao teu inteiro dispor para voltar a ajudar no que for preciso, recebe um cordial e amigoactivo abraço,
AndRocPinho
sexta-feira, 1 de dezembro de 2006
FLEXIGURANÇA
A Dinamarca, a Holanda e o Grupo Parlamentar do PCP já a praticam.
p.s.: por cautela, usa-se aqui o termo "flexigurança", para que não se caia no dilema ortográfico-neologístico entre "flexisegurança" ou "flexissegurança" .
Energia alternativa
Segundo afirmam, a ideia é "realizar uma mudança no campo de energia da Terra, mediante a inserção da maior carga possível de energia humana". Estes pacifistas crêem que a "combinação da alta energia orgásmica com a força mental pode ter um efeito muito maior que as meditações em massa ou as orações colectivas realizadas anteriormente".
O objectivo dizem ser que a "energia positiva e altamente concentrada", que entretanto se produzirá, reduza "os actuais níveis de agressividade e violência que perigosamente se verificam em todo o mundo".
Querendo saber mais, visite www.globalorgasm.com
Com tanta energia certamente muita gente dará à luz...
por Kruzes, kruzeskanhoto.blogs.sapo.pt
quinta-feira, 30 de novembro de 2006
Não se passe cartão!
Nem que fosse uma mera questão igual à da mulher de César.Detentores de cartões de crédito como os que agora vieram a lume, têm pelo menos a problemática do parecer...
Pode não ser o grande problema nacional, nem por aí resolvemos o défice, mas seja por 130 Euros/mês, seja por 5 milhões de Euros/ano para 3 administradores executivos e 4 não, meus senhores, não fica nada bem ao erário público ser discutido à boca cheia desta maneira.
No restaurante do Manel ou no Tavares Rico, ao serviço do metro, do centímetro ou de Sua Majestade.
Neste País, não faltam situações nem gente às quais, simplesmente, não devemos passar cartão!
domingo, 26 de novembro de 2006
Será segredo do penteado?
Na altura da "chicotada", o Sporting tinha sido afastado da Liga dos Campeões, na sua primeira participação de sempre, e seguia a 1 ponto do líder F.C. Porto no Campeonato Nacional.
Neste momento, vai a 2 pontos (graças a um milagreiro golo hoje metido a 2 minutos do fim) e já está fora da Champions League quando ainda falta uma jornada...
Seria um escândalo despedir agora Paulo Bento, mas convenhamos que ainda foi mais ridículo mandar Inácio embora.
Sim ao Não
Pela definição científica de vida, um feto tem vida em qualquer fase do seu desenvolvimento, diga o campo do sim o que quiser. Mas também as unhas dos pés têm vida e não existe legislação que as proteja, diga o campo do não o que quiser. No final, a questão é: que protecção a nossa própria consciência atribui àquela forma particular de vida que ainda está no ventre da sua mãe? Não há respostas científicas que nos ajudem aqui. Cada um terá de encontrara sua própria resposta e respeitar as respostas que os outros encontram. Para mim, a resposta é que aquela forma de vida merece a nossa protecção e que esse valor se sobrepõe a todas as outras válidas considerações que com ela se cruzam ou mesmo chocam. Não tenho provas científicas, não posso argumentar mais do que ser esse o ditado da minha consciência, não me posso reclamar uma verdade superior à do campo do sim.Sei, porém, que no final o que vai contar, é o veredicto da história. Acredito que as sociedades e as culturas estão sujeitas às mesmas pressões darwinistas a que estão sujeitos os organismos vivos individuais. No caso das sociedades, o genoma está codificado no conjunto dos valores morais por que se rege a sociedade. Quem tiver um bom genoma, sobrevive. Quem tiver um mau genoma, sucumbe. Não é possível dizer à partida quem vai sobreviver, pelo que não é possível dizer à partida, quem está certo. Mas, no final, o veredicto da história dirá quais foram as sociedades que adoptaram o código moral que melhor lhes permitiu sobreviver como cultura autónoma.
Por José Luis Malaquias in bloguedonao.blogspot.com
sábado, 25 de novembro de 2006
Para quem dizia não ter rabos de palha...
Tanta seriedade balofa, tanto apregoar do justiceirismo na bola, tanto encorajamento ao extermínio dos velhos dirigentes que estragaram (?) o futebol, só podia dar noutra novela ao bom estilo Vale e Azevedo.Na Terra não há santos. E o futebol não se joga no céu...
Veiga lançou esta semana a sua candidatura a Custóias.
Lá chegará, talvez, via Alvalade.
"Sol", 25/11/2006
O objectivo era claro, segundo o Fisco: «desviar proveitos gerados e obtidos em Portugal para o exterior com o propósito de evitar a liquidação do respectivo imposto em Portugal» – lê-se no relatório da Inspecção Tributária.
A criação de empresas no estrangeiro e em paraísos fiscais para facturar as comissões de transferências de jogadores de futebol era uma prática corrente do empresário José Veiga. O caso do negócio da ida de João Pinto para o Sporting é um exemplo entre muitos outros.A Administração Fiscal, numa auditoria às contas de 1997 a 1999 de uma empresa de Veiga, a Superfute, já tinha detectado a forma de actuação do empresário.
Luis Filipe Vieira ainda só é putativo candidato a Monsanto.
Parece que vai pode ir lá ter por Marvila.
"SIC Notícias", 24/1172006
Saldanha Sanches, insuspeito fiscalista, declara: "A aprovação do loteamento dos terrenos em Marvila, por parte da Câmara de Lisboa, não se revêm propriamento nos conceitos de boa-fé" (...) A Câmara tinha pleno conhecimento, há muito tempo, de que o futuro traçado do TGV por ali passava. Trata-se tão somente de criar condições para uma indemnização, tirando largos milhões do bolso dos contribuintes para os entregar ao interessado na obra. E quem é ele? Por sinal, um nome bem conhecido da nossa praça - Luís Filipe Vieira.."
De facto, os apitos podem ter muitas cores.
Mas é certo que uns desafinam ainda mais do que outros..!
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quinta-feira, 23 de novembro de 2006
Mateus rosa ou rosé?
Vejamos, em 6 cenas, o filme dos ataques que fez:
Take 1 - Facadas no orçamento
"O maior defeito do OE é não ter uma política fiscal que promova o crescimento. Teria que fazer uma abordagem diferente no combate à evasão e medidas para simplificar a vida fiscal das empresas"
Take 2 - Tiros às alterações nas leis da Segurança Social
" O que se está a fazer são coisas pontuais, correctas, mas claramente insuficientes. O problema não é financeiro, mas demográfico. (...) Não garante uma sociedade onde se possa viver bem com a longevidade que formos capaz de produzir"
Take 3 - Esquartejamento do Plano Tecnológico
"O problema está no "como". TEMOS UMA OVERDOSE DE MODERNICE, QUE É MUITO ÚTIL DO PONTO DE VISTA DA POPULARIDADE MAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA DAS EMPRESAS. O nosso Plano Tecnológico em muitas matérias é uma ideia, porque não define as tecnologias com mais potencialidade"
Take 4 - Bomba atómica na redução da despesa pública
"A reforma da Administração Pública exige, para ter sucesso, redução de recursos menos qualificados e aumento dos mais qualificados. A solução teria que passar necessariamente por rescisões. Vou mais longe, O QUE DEVIA SER POSSÍVEL, SE NECESSÁRIO, É UMA REVISÃO DA CONSTITUIÇÃO PARA QUE A SOCIEDADE PORTUGUESA POSSA VALIDAR POLÍTICA E DEMOCRATICAMENTE UM CONJUNTO DE REFORMAS QUE NÃO SÃO COMPATÍVEIS COM A RIGIDEZ DE CERTOS PRINCÍPIOS"
Take 5 - Mutilação do TGV
"Para as ligações Lisboa/Porto e Porto/Vigo, parece-me que seria perfeitamente possível uma solução de comboio de velocidade elevada, sem necessidaade de gastar rios de dinheiro para tentar ganhar 10 minutos ou um quarto de hora. (...) É preferível ter essa linha moderna (Lisboa/Porto/Vigo) daqui a pouco tempo do que um TGV daqui a 15 anos."
Take 6 - Granada na Ota
"É preciso explicar para que serve a Ota. Nuinca vi discutido a sério se a Ota é só uma solução para a Portela, porque se for, seria um disparate.(...)Discutiu-se o modelo de financiamento, mas não sabemos para que serve o novo aeroporto. (...) Sou contra despesa mascarada de investimento, contra investimento sem análise custo-benefício (...) ou em infraestruturas que não têm procura."
Augusto, socialista e progressista, ou liberal e realista? Mateus rosa ou rosé?
Intimidades militares
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
Cada qual na sua pele!
QUEM O FAZ, FÁ-LO-À COM ALGUMA INTENÇÃO, QUE ATÉ PODE SIMPLESMENTE SER NÃO GOSTAR DE FÁTIMA LOPES. AO FAZÊ-LO, ESTÁ PROVAVELEMENTE A CONTRIBUIR PARA DAR À ESTILISTA UM PROTAGONISMO DO QUAL ELA PODERÁ BENEFICIAR MUITO MAIS DO QUE SE INCOMODAR COM O CASO. QUANTO À ANJE, O FACTO DE HAVER TAL PSEUDO-MOVIMENTO EM NADA AFECTARÁ A FORMA COMO GERE O PORTUGAL FASHION, ATÉ PORQUE É NOTÓRIA A FORMA DEMAGÓGICA COM QUE TAL OPINIÃO INDIVIDUAL PROCURA ANGARIAR SUBSCRITORES.
EIS O CONTEÚDO DA MISSIVA ANTI-FÁTIMA LOPES E ANTI-ANJE
EIS IGUALMENTE A RESPOSTA QUE SE IMPÕE
MESMO ASSIM, HAVERÁ SEMPRE ALGUÉM QUE CONTINUE A PENSAR QUE A FRASE DE FÁTIMA LOPES SIGNIFIQUE QUE ELA E A ANJE APRECIAM VER ANIMAIS TORTURADOS AO LIMITE DO SOFRIMENTO...
Se for esse o seu caso, meu caro amigo, então subscreva a petição, que o endereço está abaixo
De: António Santos [mailto:peticaofatimalopes@yahoo.com.br]
Enviada: segunda-feira, 6 de Novembro de 2006 13:55
Assunto: Petição contra a participação da estilista Fátima Lopes em eventos futuros do Portugal Fashion
Exm.o Sr./Srª
Primeiro, peço desde já desculpa por estar a enviar este email sem a sua autorização. Não é nossa intenção vender nada, apenas pretendemos alertá-lo para um assunto que diz respeito a todos nós, enquanto seres humanos conscientes.
Foi criada uma petição contra a participação da estilista Fátima Lopes em eventos futuros do Portugal Fashion. Fátima Lopes é uma das felizmente poucas estilistas portuguesas que apoia publicamente a utilização de peles verdadeiras de animais na industria da moda, e que usa peles de animais nas suas colecções.
O que a maior parte das pessoas desconhece é que os animais caçados ou criados para poderem "dar" as peles para casacos de luxo são tratados de forma terrivelmente desumana, criados em condições de sofrimento horríveis, e mortos das maneiras mais atrozes, chegando mesmo a ser esfolados ainda vivos para que a pele não perca brilho. É uma situação terrível que urge por cobro a todo o custo.
http://www.petitiononline.com/ftmlopes/
Assim, pedimos-lhe que leia o texto da petição e, se concordar com a mensagem, a subscreva, e divulgue. Quantas mais pessoas ficarem a par destas atrocidades, mais perto estaremos de criar um mundo melhor para nós e para os nossos filhos.
Não voltaremos a incomodá-lo com qualquer mensagem, e agradecemos desde já a disponibilidade e qualquer apoio que nos possa dar.
Com os melhores cumprimentos
António Santos
Paulo Cardoso
----- Original Message -----
From: AMSRP
To: peticaofatimalopes@yahoo.com.br
Sent: Wednesday, November 08, 2006 11:53 PM
Subject: Petição Fátima Lopes
Caro Sr,
Estamos felizmente numa sociedade democraticamente aberta, em que cada um se pode dar ao direito de exprimir pontos de vista e defender causas. Por isso, saúdo a sua preocupação para com as brutalidades que alguns cometem com animais indefesos, se bem que infelizmente ainda há quem o faça também com seres humanos. No entanto, como cidadão que também sou, não posso deixar de aproveitar o facto de nos podermos também democraticamente contariar, para lhe exprimir que penso ser de absoluto mau gosto e de imaginativa leviandade demagógica relacionar imagens e descrições de barbaridades cometidas por alguns com as eventuais preferências de um criador de moda em usar peles naturais. Terá, por acaso, elementos seguros que indiquem que haverá menos animais abatidos barbaramente para fins de alimentação do que para extracção de peles? No caso de já alguma vez se ter alimentado de carne, já meditou sobre a sua contribuição pessoal para o abate de animais, e, tem conhecimento certo de como eles são mantidos, tratados e abatidos? Saberá por ventura que percentagem ou que número de animais por ano são abatidos apenas para extracção de peles, e em que condições? Parecer-lhe-ia despropositado que a pele de um animal abatido para fins alimentares fosse aproveitada, por exemplo, para fazer roupa que pudesse beneficiar gente com poucos meios económicos e que tenha que lidar com o frio, ou faz-lhe apenas espécie que isso seja utilizado, como tantas outras coisas, por pessoas com mais meios? Já pensou na leviandade da afirmação "Fátima Lopes não é contra o assassínio lento e doloroso, em nome da vaidade, dos milhares de animais " ou, estarei enganado, e tem provas de lhe ter perguntado isso mesmo, tendo obtido resposta positiva? Pretende que lhe explique também a gravidade (por ventura até, de natureza jurídico-criminal) de outras acusações como "Esta senhora constrói o seu negócio criando roupa produzida à custa do sofrimento de seres indefesos"?
O facto de alguém gostar muito de dinheiro não faz dele um evasor fiscal, nem as circunstâncias de gostar muito de crianças o transforma num pedófilo. Daí que o seu empenhamento em promover a relação entre as palavras de Fátima Lopes (e, mais ainda, o alegado silêncio da Associação que organiza um evento onde a criadora participa!!!) e o vídeo que exibe não possam deixar de causar consternação a muitos, alguns dos quais certamente não terão tido a amabilidade e o tempo de, como eu, lhe responder.
Melhores cumprimentos
P.S.: QUEIRA POR FAVOR V.A EX.A AINDA INFORMAR-SE, JUNTO DOS MEIOS PROFISSIONAIS LIGADOS AO COMÉRCIO DE PELES, O QUE PROVOCA NA QUALIDADE DA PRÓPRIA PELE QUANDO O ANIMAL SOFRE E PORTANTO SEGREGA HORMONAS.
terça-feira, 21 de novembro de 2006
Gabinete de Comunicação de férias?

Isso explicaria a presença do Ministro da Justiça.
Mas o que estaria então lá a fazer o Ministro das Finanças?
segunda-feira, 20 de novembro de 2006
Grande achado
Parabéns SIC, pelos "Perdidos e Achados".
Esperemos não se venha a limitar à exploração contínua e mediática de sentimentos individuais.
Outras sugestões:
O que é feito do famoso gang do multibanco?
Já esgotaram os meios de acusação, recursos incluídos, contra Paulo Pedroso ou Herman José?
Como se tem portado o assassino dos turistas portugueses que acabaram cimentados numa barraca da praia?
As sentenças sobre o caso Acqua Park já foram todas proferidas?
E a vida de Vale e Azevedo, já não interessará a ninguém?
Sócrates sabe

Sócrates da Grécia Antiga ficou célebre na História do pensamento filosófico pela imortal expressão “Só sei que nada sei”. Sem lhe tirar o mérito do esforço de meditação de uma vida, eu sei pelo menos que o Sócrates do Portugal contemporâneo sabe um pouco mais que o seu distante homónimo, mas sei ainda (e, passe a arrogância, até tenho a certeza) que sabe muito mais do que qualquer dos seus antecessores no cargo de primeiro-ministro da era democrática.
Quanto aos seus predicados “profissionais”, aí há que assumir uma descartiana atitude de mais humilde dúvida, porquanto será altamente discutível se terá melhor ou pior visão estratégica para a nação, se possui uma mais profícua “inteligência” de análise dos problemas fundamentais, se goza de um maior savoir-faire ou de uma superior capacidade de decisão do que antigos ocupantes da chefia do governo, como, por exemplo e no limite, Cavaco Silva, Sá Carneiro ou Mário Soares. Tenho, no entanto, por certo que detém duas extraordinárias vantagens relativamente a qualquer outro:
1) Possui maior maturidade do que todos os primeiros-ministros que o nosso País já elegeu, capitalizada na maior dimensão temporal que lhe pode servir para análise de antecedentes – pode “olhar para trás” e ver por que razões a dinâmica de satisfação em torno de Cavaco Silva se esbateu, que fortes pecados cometeu António Guterres por acção e inacção, que “infantilidades” foram apanágio de Santana Lopes, que erros históricos protagonizou Mário Soares.
2) Nunca antes existiu um chefe de executivo a quem lhe fosse possível servir-se de uma maioria de esquerda monopartidária, o que lhe aporta uma oportunidade inédita, num momento em que o País necessita inequivocamente, e mais do que em qualquer outra altura, de políticas “à direita”, em tantas áreas quanto a competitividade da economia, as realidades do universo do trabalho, as finanças do Estado, a segurança, a própria saúde e a educação.
Pois neste preciso ponto, José Sócrates faz o mais categórico e eficaz uso das suas “vantagens competitivas”, entregando sucessivamente inéditos presentinhos à sua direita e óbvias prendas à sua esquerda. Aliando esta ímpar capacidade de distribuir jogo, por todos os jogadores à volta da mesa, a uma cuidadosa e eficaz capacidade de comunicação (leia-se naturalmente um excelente “marketing político”), não podemos deixar de admitir que está brilhantemente gerada a receita para vencer próximas eleições.
Não tenhamos sérias dúvidas ou ilusões a este respeito: Sócrates não é um reformador, e tudo leva a crer que vai desperdiçar uma oportunidade histórica de ficar, ele mesmo, memorizado na nossa História como um grande estadista. Promete reformas de fundo e limita-se, na prática, a algumas “semi-reformas”, de âmbito limitado, meticulosamente mediatizadas, a meras medidas de revisão (às quais dá um cariz de ruptura, sem o serem de facto) ou a simples acções avulso que induzam a ideia de desafio a interesse corporativos que são tidos como entraves a maiores dinâmicas reformadoras.
Refiro-me a um vasto leque de anúncios, decretos e projectos-lei como, por exemplo, o Plano Tecnológico ou ao PRACE, que não se sentem no terreno ou que já demonstraram, aqui e ali, serem pouco mais que o mesmo; ao Simplex, que é um excelente documento mas que não salta do papel para a eficácia; aos orçamentos de combate ao défice, sempre inconsequentes na diminuição da despesa pública, que é onde mais importa; ao disparate OTA e ao super-disparate TGV, que fazem lembrar as casas com o serviço mais caro da TV Cabo e contas da mercearia por pagar há um ano; e a tantos outras falsas acções ou non-senses governativos, que tanto se suavizam por eloquentes e atractivos discursos. (Perdoem não ter referido esta vantagem, pois nela é evidentemente também o melhor primeiro-ministro que já tivemos…)
As hipóteses de uma reforma constitucional que precisamos com diligência ficarão nisso mesmo, em meras hipóteses. O peso do estado na vida das empresas não vai deixar de ser o fardo de sempre. A agilização do mercado de trabalho e a flexibilização dos instrumentos que nos perm
itam maior competitividade permanecerão na prateleira. A eficiência de gestão social, que essa, sim, cabe ao Estado, continuará sem ver mais e melhores práticas de apoio aos cidadãos. A tranquilidade com que saímos à rua seguirá com os crescentes revezes sem que o governo actue em sentido contrário.No fundo, ninguém saberá ao certo que pensamentos ideológicos terá José Sócrates.
Muito mais que um não-alinhamento ao estilo Gandhi ou marechal Tito, mais que uma acção apolítica ou “inideológica” como a de Gerhard Schroeder, mais que uma terceira via do tipo Tony Blair, Sócrates abre estreitas vielas em todas as direcções, oferecendo, a cada um de nós, pequenos caminhos que não nos leva eficazmente a lado nenhum. É certo que alguns se incomodam por terem que recuar o muro, mas ninguém fica com a propriedade amputada. Quem reclama, fá-lo por obrigação, ou até por orquestração, mas não por verdadeira convicção ou efectivo incómodo, pois Sócrates não os deixa ter motivos para se indignarem.
Mas quem sai de casa, vê trabalho em curso e buracos no chão…
domingo, 19 de novembro de 2006
Ganhar indústrias

Desde o primeiro Quadro Comunitário de Apoio aprovado na era Delors até aos dias de hoje, Portugal teve à sua disposição significativas verbas para dinamizar os seus mais carenciados sectores de actividade económica para o embate dos mercados desprotegidos e ultra-concorrenciais. Avultados montantes disponibilizados desde então, por exemplo, na agricultura, parecem não ter germinado de todo. Com raras excepções, foram sementes que morreram na terra.
Volvidos cerca de 20 anos, travamos a batalha da sobrevivência do sector secundário, à cabeça do qual surge incontornavelmente, ainda, a ITV, indústria têxtil e do vestuário. Mesmo representando já só cerca de 10% das exportações nacionais, a contrastar com os 35% à época da entrada na C.E.E., a ITV continua a ser a indústria nacional mais empregadora. Tal como no caso da agricultura, o seu enfraquecimento era um cenário perfeitamente previsível, mesmo que houvesse lugar a uma poderosa canalização das ajudas dos cofres comunitários. Tal como no caso da agricultura, os sucessivos QCA’s, traduzidos nos sistemas de incentivos do PEDIP, PEDIP II, IMIT e, mais recentemente, Dínamo e PRIME, foram-lhe atribuindo, sem grandes diferenciações, verbas mais ou menos generosas para a sua modernização. Tal como no caso da agricultura, já se registam tímidas intervenções a questionar sobre a maior oportunidade de “deixar cair” a ITV em benefício de outras com maior potencial de se imporem internacionalmente.
Ganhar algo ou perder tudo, concentrar esforços ou dispersar recursos, é o cerne deste dilema que não pode deixar de ser visto como de algum bom senso, por muito violento e politicamente incorrecto que até possa parecer
Mas exactamente por essa ordem de ideias, não temos que “dar de barato” a contenda de toda a Indústria Têxtil e do Vestuário neste mercado global. Há sub-sectores da ITV, produtos específicos e áreas ou nichos de mercado em que ela tem todas as hipóteses de competir ao mais alto nível internacional, como disso já tem dado claras provas. O que provavelmente continuará a ser um caminho errado será o de não destacar como prioritárias certas especificidades de tipologia de produto e de políticas sub-sectoriais. Da mesma forma que agora verificamos que são escassos mas existem sub-sectores agrícolas com algum futuro, como o dos vinhos ou o da promissora agricultura biológica, dentro de alguns anos poderemos muito bem constatar que se apoiaram sem consequências áreas da ITV, bem como aliás de outras indústrias, e que, pelo contrário, foram insuficientemente incentivados outros seus sub-sectores, outras actividades, outros produtos e serviços mais promissores. Seria, pois, de todo recomendável que as entidades nacionais procedessem, enquanto é tempo, a um aprofundado estudo sobre os elementos da ITV - assim como naturalmente de outras indústrias mais ameaçadas - que possam mais produtivamente frutificar.
Vejamos as palavras-chaves dos sucessivos programas de apoio de que esta indústria, e outras, beneficiaram até ao presente, desde o PEDID ao PRIME: equipamentos novos; informatização; qualidade; recursos humanos qualificados; marcas próprias; design; internacionalização; diferenciação/inovação; I&D e tecnologia em “dose-choque”. Acontece que, sempre que o futuro acabou por dar razão a tais lemas, ele próprio se encarregou de evidenciar que tais conceitos surgiram tarde demais. Quando se proclamava a necessidade de apostar na qualidade, já as empresas deveriam estar norteadas por tal prioridade e dedicar-se à internacionalização e à inovação. Quando se apela agora à Investigação e Desenvolvimento, já todos deveríamos estar com a respectiva máquina da inovação profissionalizada e pensar sobre que novas vantagens competitivas fazer desabrochar. Mas resulta sobretudo ainda que, para além de chavões tardios, os referidos lemas pecaram por isso mesmo, por serem palavras de mote generalistas, não aplicadas com orientação selectiva para os produtos, as empresas e os sub-sectores com actividade de maior potencial económico e competitivo.
Hoje muito se destaca a “clusterização” ao nível das novas tecnologias ou das energias renováveis. Não faria tanto ou mais sentido aplicá-la a áreas tradicionais específicas que já demonstraram o seu potencial competitivo?
Já há mais de 10 anos, os relatórios Michael Porter identificavam, entre um punhado de áreas de oportunidade para Portugal (entre os quais a do turismo, que ninguém hoje se atreve a contrariar), a indústria das malhas como um importante sub-sector da ITV que detém um “know-how” diferenciado e altamente competitivo. A realidade presente revela que as duas únicas empresas produtoras de fibras estão controladas por capitais estrangeiros e tendem as deslocalizar, que praticamente não temos fiações a operar no País, que as empresas de tecelagem nacionais contam-se pelos dedos das mãos, que as tapeçarias, as passamanarias, os bordadores, as cordoarias ou os “não-tecidos” correspondem a “ilhas” de actividade sem peso real na economia. Resta, na realidade, pouco mais do que a indústria das malhas, que, a par com a dos “têxteis-lar”, vai alimentando um conjunto de empresas de tricotagem, de tinturaria, de acabamentos e de confecção. Não teria sido preferível discriminar positivamente este sub-sector de maneira a que ele estivesse hoje mais forte e com mais sólidas perspectivas? Não será ainda possível reexaminar toda uma indústria, e toda uma ITV em particular, de modo a favorecer as actividades e as empresas que mantêm vantagens de base para a competição dos anos vindouros?
Mudar de lemas já provou que pouco colhe. Não seria altura de mudar de táctica?
sábado, 11 de novembro de 2006
Guiness!

Parece que nos poderemos orgulhar de ter em Portugal o clube de futebol com maior número de sócios do mundo.
Parece também que o Guiness Book of Records não tem uma alínea para o clube de futebol que mais sócios prometeu e mais longe ficou da expectativa
(Recordatório - Luis Filpe Vieira, 2004: "Se não chegarmos aos 300.000 sócios nos próximos meses, obviamente que me demito")
sexta-feira, 27 de outubro de 2006
Rosa Negra

Diversos analistas políticos convergiram na apreciação de a penúltima semana de Outubro terá sido a pior do Governo desde a sua posse. Na realidade, cerca de metade das grandes áreas de governação foram envolvidas, pelos próprios responsáveis máximos, numa ímpar sucessão de declarações infelizes, argumentos ininteligíveis, contradições desconcertantes e desmentidos atrapalhados.
Com a honrosa excepção de um chapéu bem levantado para a actuação do Ministério da Educação, onde uma aparente tenacidade e a lúcida coerência das posições poderão vingar perante habilidosas orquestrações políticas que têm procurado afinar os já de si difíceis resistentes das letargias do sector público do ensino, pelo menos enquanto não existirem razões para também se despertarem a tantas vezes decisiva força dos movimentos estudantis.
Vimos porém, um Ministro da Saúde já com sérios problemas com a máquina partidária que sustenta o Governo, a propósito de polémicas intenções em fechar urgências de hospitais de concelhos distantes do litoral que, o que mais precisariam, com urgência e na realidade, seria a aproximação à faixa mais desenvolvida do nosso território. Vimo-lo ainda tecer considerações estranhas sobre descidas de preços dos medicamentos e com uma súbita e acérrima defesa da aplicação de taxas moderadoras aos internamentos e às cirurgias, sem correctamente explicar os mecanismos de discriminação que possam introduzir alguma justiça social em semelhante modelo.
Vimos o Ministro das Finanças pronunciar, de novo, os velhos chavões do orçamento de “rigor e de contenção”, “de verdade e de transparência”, quando nos tinha procurado preparar a todos, e nessa altura com o devido “sentido de Estado”, para a inevitabilidade de políticas orçamentais verdadeiramente orientadas por princípios reformistas, que, afinal, não irão muito além de medidas norteadas por avulsos desafios a algumas corporações, medindo-se cuidadosamente on line o seu reflexo na opinião pública, sob a égide da encenação mediática em que o Primeiro-Ministro já demonstrou ser o mais pródigo executante que o Portugal democrático alguma vez viu.
Vimos ainda o ex-comunista Ministro dos Transportes quebrar a segunda grande promessa eleitoral da campanha socialista, e desta vez não se fazendo acompanhar do humilde pedido de desculpas por parte do Primeiro-Ministro, ao anunciar que algumas das SCUT’s iriam deixar de o ser, passando a auto-estradas com portagens. O facto em si já seria suficientemente grave no plano daquilo a que não se pode deixar de apelidar de “desonestidade política”, porquanto leva naturalmente outras forças políticas, como o PSD e o CDS-PP, que desde sempre optaram pela ingrata e impopular posição de permitirem “queimar” potenciais votos com a defesa da abolição das SCUT’s, a interpretarem correctamente tal anúncio (passe a linguagem “de mercado”) como uma efectiva concorrência desleal. Mas a contradição de Mário Lino não esgota o catastrofismo nela própria, ainda se agrava cumulativamente nas explicações oferecidas para a parcialidade da sua execução. Se, por um lado, poderia ser minimamente aceitável que o envergonhado “arrependimento” deixasse de fora as vias que ligam municípios do nosso interior, por uma mera questão de coesão e maior justiça territorial, já não pode ser tolerável, de forma alguma, que as SCUT’s deixem de existir na faixa litoral norte e permaneça gratuita a Via do Infante! Critérios sócio-económicos foram advogados sem sustentação sólida, na medida em que hoje se encontra por demais provado que as regiões mais negativamente discriminadas nesse plano (múltiplos índices e rácios ligados ao poder compra, ao investimento público ou aos níveis de desemprego), se encontram nos distritos do Porto, Braga e Viana, muito mais do que no Algarve. Temos, pois, que admitir que à decisão presidiram razões do foro político, para o que será útil recordar a força do “lobby” metropolitano algarvio e a mudança da Câmara Municipal de Faro para a gestão socialista. Pretenderá mesmo o Eng. Lino que nos convençamos ser mais difícil usar a EN 125 para ir de Faro a Olhão do que a EN 13 do Porto até Esposende?
Vimos, por fim, um Ministro da Economia que, cada dia que passa, mais vai sustentando a ideia que se instalou de ter sido um enorme erro de casting.
Escrevi numa coluna de O Primeiro de Janeiro em Maio passado, que Freitas do Amaral teria que abandonar o Governo bem antes do final do ano, pois, se ele próprio não reconhecesse que o País não poderia suportar um Ministro confessamente cansado, José Sócrates teria que o concluir por si mesmo. Nessa altura, acrescentei que o outro Ministro que parecia dar semelhantes sinais de “fadiga” era Manuel Pinho, podendo ser o segundo mais sério candidato a trocar as reuniões de executivo por uma vida de maior repouso.
Entendo, de facto, que Manuel Pinho revela uma desorientação inata, ou, para ser mais delicado, muitas vezes se distrai, distraindo-se até do facto de que anda distraído.
Não sustento tal afirmação apenas por ele ter recentemente afirmado que o aumento das tarifas eléctricas domésticas o “apanharam surpreendido”. Provavelmente algum funcionário do seu gabinete se terá distraído de lhe comunicar que a EDP teria proposto à Entidade Reguladora do Sector Eléctrico (ERSE) um aumento superior a 15%, uma vez que este tipo de propostas são executadas com uma antecedência que não permite propriamente grandes surpresas. Mas terá também se distraído de que o “timing” para a ERSE decidir o montante das tarifas a aplicar seria este mesmo, pois se tal não tivesse ocorrido, teria por certo procurado conhecê-lo antes da ERSE o revelar publicamente. E quando ao País anunciou a sua surpresa, este logo lhe lembrou de que se terá distraído de ter sido ele próprio a propor e fazer aprovar a legislação conducente a aumentos de tal natureza.
Mesmo sem querer ser exaustivo, há ainda o episódio do “decreto” de fim da crise, que nos fez raspar a fronteira do ridículo. Seja para evitar o cansaço ou por outra qualquer razão, já tinha parecido que Manuel Pinho pretendia encetar uma nova era de discurso quando, há cerca de um mês, interveio no encerramento do Forúm ATP da Indústria Têxtil, afirmando que apenas pretendia felicitar o sector por ter sabido vencer a crise! Tal argumento foi apoiado no facto de ter na sua possa elementos que indicavam um aumento de 0,4% nas exportações têxteis do 1.o semestre de 2006. Tudo isto foi obviamente acolhido pela generalidade dos industriais presentes como praticamente do foro da provação ou do insulto, porquanto tais exportações sofreram enormes baixas desde há quase uma dezena de semestres a esta parte, sendo certo que qualquer estudante do 1.o ano de Economia sabe que, entre um cenário de recuperação económica e um aumento de 0,4% após recessões repetidas, vai uma distância maior do que entre os pseudo-confiantes discursos eloquentes de um ministro e a sua vontade de escutar as preocupações e as propostas dos empresários.
Não precisamos sequer de abordar as célebres declarações do seu Secretário de Estado, sobre o qual o Ministro tem óbvias responsabilidades políticas, para insistirmos que o País não está em condições de suportar governantes com dias infelizes, muito menos governantes infelizes e distraídos!
sexta-feira, 6 de outubro de 2006
España, España, España

Espanha é provavelmente hoje a potência europeia mais florescente de todas quantas fazem ou não parte da União Europeia. Membro do restrito clube dos cinco países com mais de 40 milhões de habitantes, se excluirmos apenas as orientais excepções de inquietantes nações como a Rússia ou a Turquia, possui um mercado interno com uma dimensão aquisitiva apenas comparável aos restantes “grandes”, Alemanha, Reino Unido, França e Itália. Precisamente por essa ordem de ideias e pela enorme outra razão de ser a única economia “mesmo aqui ao lado”, a internacionalização das empresas portuguesas com aspirações a tal tem, como etapa obrigatória, a sua espanholização.
De um modo quase unânime, o mercado espanhol é considerado, pois, o mais próximo, um dos maiores e um dos melhores que podemos ter pela frente. Sabendo que sempre foram próximos e numerosos, pouco importa escalpelizar por que razões os espanhóis se têm constituído num dos mais fortes países do “velho mundo”, muito menos comparativamente connosco, se exactamente por serem mais e muitos, se por terem tido melhores executivos democráticos, se quiçá por mais eficiente(s) ditador(es), por deterem um espírito mais pragmático, uma multiculturalidade mais diversa ou uma língua mais forte. Provavelmente, todos estes e outros factores, inerentes ou “acidentalmente” históricos, contribuíram para que Espanha se fosse tornando, sobretudo nos últimos 20 anos, no espaço económico com o mais acentuado ímpeto de fortalecimento na Europa, incluindo os seus vizinhos “do barraco do fundo”. Muito possivelmente só encontramos paralelismo semelhante em casos ainda mais recentes como a Irlanda e, aparentemente, algumas renascidas nações do leste europeu, como a República Checa ou a Eslovénia, com as “ligeiras” diferenças de que estes, por força da sua dimensão, nunca serão uma efectiva potência europeia, possuem difíceis afinidades comerciais para connosco e muitas linhas de fronteira de permeio.
Vender em Espanha e obter retornos financeiros interessantes estão perfeitamente ao alcance de muitas pequenas e médias empresas, como comprova a actividade recente de várias dezenas de sociedades de capital português.
Competir em Espanha com notoriedade e apoderar-se de importantes fatias de mercado não são tarefas impossíveis, que o digam a Compal, a Renova ou a Delta.
Mas estabelecer-se em Espanha aspirando a posições estratégicas pode requerer, para além de consolidados pressupostos comerciais e financeiros, elevadas doses de persistência e a necessária experiência directa q.b.. Vejam-se, por exemplo, os casos menos afortunados do início de internacionalização da Caixa Geral dos Depósitos e da venda de combustíveis da Petrogal. Admita-se ainda que a E.D.P., para além dos alegados constrangimentos relacionados com os actuais custos de produção de electricidade, e dos prováveis receios de declarar guerra aos seus concorrentes ibéricos, possa ter tido um acesso de bom senso ao eventualmente admitir não saber ainda como se espanholizar.
Na realidade, o facto de os negócios e os consumidores espanhóis serem muitos, bons e próximos pode fazer desembocar na ilusão de que bastará definir pontes comerciais e adoptar um mero plano de marketing, razoavelmente dotado de recursos de investimento, para neles triunfar. Para o evitar, é fundamental respirar Espanha e sentir o seu pulsar.
Sem falsos temores de pecar pela generalização, o espanhol é pragmático e directo na hora de escolher um produto ou contratar um serviço. O espanhol gosta de comprar barato, mas pode pagar caro. O espanhol gosta especialmente de comprar espanhol, mas não enjeita levar estrangeiro, desde que não sinta estar a preterir nacional. Estes serão provavelmente traços transversais dos espanhóis. Mas, “al final, pero antes de todo”, o espanhol não é simplesmente o espanhol; é sim o complexo somatório do castelhano, do andaluz, do asturiano, do aragonês, do cantábrico, do navarro, do valenciano, do canário e, requinte dos requintes, do galego, do catalão e do basco!
Daí que qualquer plano de marketing não pode deixar de ser delineado sobre um suporte que traduza a realidade de tal diversidade, sem prejuízo das menos abundantes características comuns. E que faz com que alguns espanhóis sejam bem mais directos e pragmáticos na hora da compra do que outros, que alguns gostem menos de comprar barato e possam comprar bem mais caro do que outros, que alguns gostem mais de comprar espanhol do que outros.
É, pois, compreensível que a profética frase produzida à época da posse do nosso actual primeiro-ministro sobre as prioridades da nossa política externa, “Espanha, Espanha, Espanha”, não tenha apenas pecado pela ausência de uma verdadeira sequência política palpável no pós-retórica, mas também pelo facto de se ter limitado a pronunciar a palavra “Espanha” apenas por três vezes.


