Não obstante ter outrora conquistado legitimamente mais de 15% do eleitorado português, o CDS tem vivido, nos últimos anos, numa amplitude real de expectativa de representar politicamente entre 5 a 10% dos cidadãos nacionais.
Tão nobre e legítima será a missão de ambicionar que um partido atinja o patamar dos dois dígitos da percentagem de votos, como a de pretender que ele venha a vencer eleições legislativas. Porém, actualmente, seria quase tão difícil ao CDS-PP concretizar um objectivo como o outro.
Para a assumpção do primeiro alvo, há de facto que discutir a liderança, a eficácia da sua imagem e da sua mensagem, a estratégia política para os próximos anos, as linhas programáticas e as medidas a propor ao País. Contudo, ter ainda maiores aspirações implicaria bastante mais. Passaria sobretudo por apostar num contexto de longo prazo, revitalizando os seus princípios doutrinários, valorizando claramente a sua identidade e, em última instância, obtendo o alargamento efectivo da sua base social de apoio.
Distanciar-se da franja mais à direita do espectro político nacional, que contenha qualquer leve conotação extremista, ao mesmo tempo que se descartam ininteligíveis e inconsequentes hífenes ao centro – centro esse que, por sua vez, toca a esquerda que sempre procurou combater – levaria provavelmente o CDS-PP a ser produtivamente visto como a única e verdadeira direita democrática portuguesa. No contexto contemporâneo de uma sociedade com uma razoável maturidade política como a nossa actualmente, esta clarificação poderia significar a opção por uma “auto-estrada” da política do futuro, abdicando de um conjunto de caminhos e atalhos que seguem razoavelmente uma direcção próxima da pretendida, mas que nunca se sabe exactamente onde o leva.
As várias eleições foram demonstrando inequivocamente que a similaridade das mensagens entre o CDS e o PSD apenas beneficia a posição deste e, pelo contrário, sacrifica o CDS numa importante faixa onde estas duas forças políticas disputam as preferências de voto. Daí que o CDS-PP tenha muito mais a ganhar em enveredar por uma mensagem diferenciada e fortemente conotada com as suas linhas ideológicas de base, que, apesar de declináveis em alguns pontos programáticos semelhantes, são claramente distintos dos do PSD.
Assumir definitiva e indubitavelmente a sua natureza de força política da direita democrática, sem eufemismos, sem amorfas posturas pseudo-abrangentes, sem sinuosas posições de conveniência pontual, seria provavelmente a primeira das etapas que o partido teria que deixar para trás de modo a aspirar a um reconhecimento novo e efectivo. Ter a pretensão de abarcar simpatias provenientes de todo um centro-direita não pode deixar de parecer um passo maior do que a perna e favorece um esvaziamento de identidade, sobretudo aos olhos de quem apenas tem uma cruz para colocar no boletim de voto.
Tendo como certo que a nossa sociedade em geral, distante como está de discussões ideológicas como as que pontificaram na década de 70, não reconhece bem os princípios e a doutrina de cada força política, faria todo sentido que o partido, uma vez agarrada claramente a bandeira da direita democrática, se empenhe em explicar quais são os valores que o fazem mover, a si e à direita que abraçou, à luz dos quais se proporão então as estratégias, as políticas e as medidas para melhorar o País e a qualidade de vida dos seus concidadãos.
Finalmente, poderia ser particularmente pertinente que o CDS-PP analisasse até que ponto se prejudica por ser visto como a força partidária mais à direita do espectro político português, no universo das que possuem visibilidade pós-eleitoral. Esse facto não pode deixar de lhe ser negativo perante o vastíssimo eleitorado avesso a extremos e que procura ter uma atitude dita “equilibrada” nas escolhas que considera importantes. Para além de purgar completamente, como aliás tem pretendido geralmente fazer, qualquer manifestação de radicalismo, talvez se justifique deixar de ignorar forças políticas à sua direita. Procurar, por exemplo, contribuir para o acantonamento à direita de partidos como o PND, sem preocupação de evitar dar-lhes palco, poderia ser mais frutuoso e importante, a médio-longo prazo, do que as consequências negativas de qualquer temor em lhe serem retirados, no imediato, alguns votos à sua direita. Possivelmente, abrir-se-ia um campo de eleitorado, do seu lado esquerdo, bem mais amplo do que aquele.
Ganhar espaço eleitoral poderá pois passar por assumir a direita, explicar a direita e distanciar-se das fronteiras com áreas nas quais o partido não revê.
Até lá, vão-se repetindo congressos com elevada probabilidade de pouco ou nada mudarem…
sexta-feira, 5 de maio de 2006
quinta-feira, 6 de abril de 2006
Simplexmente complicado
Contratar uma empresa de consultoria especializada em marketing, comunicação e publicidade, certamente paga a peso de ouro e indesmentivelmente colocada em acção por adjudicação directa e de forma célere, que produziu uma plano de marketing e uma vastidão de painéis, brochuras, documentação virtual e artigos de merchandising, ao melhor estilo da política propagandística, foi o maior pecado cometido pelo Governo da República Portuguesa neste processo das 333 medidas “Simplex”.
De tudo o resto, só há verdadeiro lugar à congratulação. Haja determinação e sensibilidade de poder colocar convenientemente em prática os processos de intenção.
Na realidade, não seria totalmente previsível que um executivo dito de esquerda conseguisse ter a ousadia de propor um abrangente “esquema” de combate às desmesuradas complexidades das organizações e processos estatais, por muitas deficiências que tais “pacotes” possam parecer conter. Há que aplaudir, por muito receosos que possamos estar perante as hipóteses de que a prossecução de muitas das anunciadas decisões se esbarrem em problemas de inconveniência política de substrato ideológico.
As oposições só se podem tornar efectivamente confiáveis, ou, para usar um adjectivo ainda mais desgastado e suave, credíveis, se conseguirem ter a “capacidade de encaixe” de felicitar quem governa pelas propostas, iniciativas ou tomadas de decisão que vão de encontro às suas próprias orientações. Não se trata sequer de mera correcção na acção ou na palavra, trata-se até mesmo de real conveniência política em fazê-lo.
É fundamental ter a visão exógena do papel da oposição, para além da simples mas defensável lógica política de quem, batendo-se por ideologias, princípios e estratégias, se sinta mais capaz de levar ao País a uma melhor evolução do que quem tem essa responsabilidade no momento. Há também, pois, que vestir a pele dos eleitores e obter emprestado dos cidadãos o bom senso predominante numa sociedade como a nossa. Haverá algum português, que não esteja directamente envolvido nos processos de desburocratização ou de racionalização dos organismos do Estado, seja cidadão mais esclarecido ou menos instruído, que, em consciência, possa estar verdadeiramente contra os fundamentos de tais projectos? Só se a resposta for efectivamente positiva é que alguém poderá concordar com que a tónica das reacções a tais anúncios seja colocada nas aparentes imprecisões, lacunas ou inconsistências. Igualmente, destacar como questão central o aparatoso formato de apresentação, ou os inevitáveis “efeitos secundários” menos bons, não parecem servir eficazmente as próprias pretensões políticas de quem assim critica.
Ora, partidos como o veterano PCP e o jovem BE nunca tiveram outra postura senão a da crítica feroz e permanente, uns ao bom velho e estafado estilo Far West, outros num mais apetecível look do género Ninja. Daí que, desse quadrante, não se esperem laivos de lucidez que permitam conotar alguma pequena palavra de regozijo com um hipotético leve elogio ao Governo. Mas para quem já teve o ónus de governar o País e tem legítimas aspirações de médio-prazo a fazê-lo de novo, como os casos dos experientes PSD e CDS-PP, não deveria ser deixado o habitual termo “construtivo” apenas para os discursos de tomadas de posse enquanto elementos de oposição.
Ser oposição é evidentemente a benigna acção de criticar e de propor alternativas, nem pode ser transformado no contrário ou em silêncios, mas não deve ser esgotado nisso mesmo. Fazer de tal conduta o eixo fundamental de actuação de oposição não impede, de todo, que se reconheçam sem complexos os pontos em que as propostas dos adversários políticos vão de encontro ou se aproximam das próprias ideias. Sob pena de, desde logo, se dar por moralmente perdidas reivindicações de natureza semelhante que possam surgir mais tarde em papel governativo, pois não se pense que o próprio eleitorado se olvida totalmente de tais posturas. Sob pena, no fundo, de se estar a contribuir para complexar uma tarefa de reconhecimento de lealdade intelectual para com o País e que nunca pode deixar de ter importante expressão no dia dos próximos votos.
O belo “Simplex” não é simples, nem mágico. Simples e mágica é apenas a fórmula que foi encontrada para o mostrar à Nação.
Mas não será complicando demasiado a caminhada do “Simplex” logo à nascença que ganha a dita Nação, nem muito menos quem o critica.
De tudo o resto, só há verdadeiro lugar à congratulação. Haja determinação e sensibilidade de poder colocar convenientemente em prática os processos de intenção.
Na realidade, não seria totalmente previsível que um executivo dito de esquerda conseguisse ter a ousadia de propor um abrangente “esquema” de combate às desmesuradas complexidades das organizações e processos estatais, por muitas deficiências que tais “pacotes” possam parecer conter. Há que aplaudir, por muito receosos que possamos estar perante as hipóteses de que a prossecução de muitas das anunciadas decisões se esbarrem em problemas de inconveniência política de substrato ideológico.
As oposições só se podem tornar efectivamente confiáveis, ou, para usar um adjectivo ainda mais desgastado e suave, credíveis, se conseguirem ter a “capacidade de encaixe” de felicitar quem governa pelas propostas, iniciativas ou tomadas de decisão que vão de encontro às suas próprias orientações. Não se trata sequer de mera correcção na acção ou na palavra, trata-se até mesmo de real conveniência política em fazê-lo.
É fundamental ter a visão exógena do papel da oposição, para além da simples mas defensável lógica política de quem, batendo-se por ideologias, princípios e estratégias, se sinta mais capaz de levar ao País a uma melhor evolução do que quem tem essa responsabilidade no momento. Há também, pois, que vestir a pele dos eleitores e obter emprestado dos cidadãos o bom senso predominante numa sociedade como a nossa. Haverá algum português, que não esteja directamente envolvido nos processos de desburocratização ou de racionalização dos organismos do Estado, seja cidadão mais esclarecido ou menos instruído, que, em consciência, possa estar verdadeiramente contra os fundamentos de tais projectos? Só se a resposta for efectivamente positiva é que alguém poderá concordar com que a tónica das reacções a tais anúncios seja colocada nas aparentes imprecisões, lacunas ou inconsistências. Igualmente, destacar como questão central o aparatoso formato de apresentação, ou os inevitáveis “efeitos secundários” menos bons, não parecem servir eficazmente as próprias pretensões políticas de quem assim critica.
Ora, partidos como o veterano PCP e o jovem BE nunca tiveram outra postura senão a da crítica feroz e permanente, uns ao bom velho e estafado estilo Far West, outros num mais apetecível look do género Ninja. Daí que, desse quadrante, não se esperem laivos de lucidez que permitam conotar alguma pequena palavra de regozijo com um hipotético leve elogio ao Governo. Mas para quem já teve o ónus de governar o País e tem legítimas aspirações de médio-prazo a fazê-lo de novo, como os casos dos experientes PSD e CDS-PP, não deveria ser deixado o habitual termo “construtivo” apenas para os discursos de tomadas de posse enquanto elementos de oposição.
Ser oposição é evidentemente a benigna acção de criticar e de propor alternativas, nem pode ser transformado no contrário ou em silêncios, mas não deve ser esgotado nisso mesmo. Fazer de tal conduta o eixo fundamental de actuação de oposição não impede, de todo, que se reconheçam sem complexos os pontos em que as propostas dos adversários políticos vão de encontro ou se aproximam das próprias ideias. Sob pena de, desde logo, se dar por moralmente perdidas reivindicações de natureza semelhante que possam surgir mais tarde em papel governativo, pois não se pense que o próprio eleitorado se olvida totalmente de tais posturas. Sob pena, no fundo, de se estar a contribuir para complexar uma tarefa de reconhecimento de lealdade intelectual para com o País e que nunca pode deixar de ter importante expressão no dia dos próximos votos.
O belo “Simplex” não é simples, nem mágico. Simples e mágica é apenas a fórmula que foi encontrada para o mostrar à Nação.
Mas não será complicando demasiado a caminhada do “Simplex” logo à nascença que ganha a dita Nação, nem muito menos quem o critica.
sábado, 25 de março de 2006
Contrato Primeira Encrenca

Vivendo a França dias de regular agitação política a propósito do novo Contrato de Primeiro Emprego, deveríamos prestar boa atenção a esta problemática que tem sido, aliás, objecto de vendável mediatização. Não pelo facto de admitirmos que também em Portugal, mais cedo ou mais tarde, espectáculos de maciças manifestações entusiasmadas possam vir a ser combatidas com jactos de água da polícia ou de outra forma qualquer. Nem até por nos termos que convencer do fatalismo de que as grandes evoluções sociais e políticas de relevo surgem invariavelmente em França antes de, profeticamente, se estenderem ao resto da Europa dita civilizada.
Dever-nos-ia essencialmente atrair a questão do CPE francês pela enorme actualidade e “internacionalidade” de todas as circunstâncias que o envolvem. Se não, vejamos as similaridades com a presente realidade portuguesa:
1) França e Portugal possuem taxas de emprego efectivamente elevadas, com propensão clara para se agravarem ainda mais e sem nítidas perspectivas de datas e de formas que permitam a inversão natural de tais tendências;
2) Dentro da baixa empregabilidade em ambos os países, assume particular relevância a dos jovens e dos recém-licenciados, que mais apropriadamente se deveria designar por taxa de “ainda não emprego” em vez de taxa de desemprego;
3) Em Portugal e em França, encontramos das legislações laborais mais rígidas na protecção dos direitos do empregado, praticamente que consagrando a regalia de um trabalho vitalício, o que objectivamente dificulta de sobremaneira a vontade de empregar novos e muitos colaboradores;
4) As realidades conjunturais resultantes da globalização do comércio mundial tornam inevitável a aposta, por parte das empresas europeias, em vertentes de competitividade como a diferenciação, a investigação e a inovação, necessitando para tal, por isso, de intensificar a força de trabalho jovem, criativa e regenerada.
Enquanto “massa” exterior à agitação CPE que tem ocorrido em França, não me parecerá totalmente justo e esclarecido que possamos, como portugueses, manifestar uma opinião cabal sobre a justeza das decisões políticas tomadas pelo governo francês ou sobre a pertinência das críticas de que tem sido alvo, tanto mais que, por muito profundo que seja o conhecimento das propostas de lei e da própria história laboral francesa, não conseguimos ter vivido in loco certos pormenores mais sensíveis que a eles estão associados, nem temos forma de calibrar dinamicamente as informações veiculadas pela comunicação social com a nossa percepção directa sobre o pulsar dos agentes da sociedade. Mas, pelo óbvio paralelismo que este problema francês possui com problemas nossos, nem o bom senso nos impedirá de mostrar maior ou menor simpatia pelo espírito das soluções assumidas ou pelas posições de princípio antagónicas.
Correndo o risco de pecar por um sumarismo castrador, o que basicamente o governo Villepin pretende instituir é um mecanismo de incentivo à empregabilidade dos jovens, até aos 26 anos, à procura do seu primeiro emprego, socorrendo-se para tal da permissão de uma não-garantia absoluta da continuidade. Ou seja, mais cruamente, quer fazer passar às empresas a mensagem: “empreguem sem receio, experimentem e decidam caso a caso”. Será assim tão socialmente injusto propor uma solução nestes termos? Existem soluções legais semelhantes que tenham sido já postas em prática e que se tenham revelado como negativas para o emprego real e para as próprias causas sociais?
Em Portugal, por exemplo, os contratos de estágio profissional promovidos pelos Centro de Emprego do IEFP e o recém-criado programa Inov-Jovem possuem princípios idênticos e já provaram, muito claramente, terem sido das poucas iniciativas de efectivo sucesso na colocação de jovens no mercado de trabalho.
Por que razão se coloca a tónica na parte da desobrigação de vínculo permanente e não nas imensas oportunidades de emprego que tal medida corajosa gerará inquestionavelmente?
Não caiamos no erro de comparar as manifestações estudantis de Maio de 1968 com as de Março de 2006. Para além de gerações diferentes, as causas dos anos 60 eram de natureza completamente distinta, as motivações são agora de natureza puramente reactiva e não movidas por vagas da sociedade que encontraram nos estudantes seus porta-bandeiras. Aliás, nas organizações que se têm mostrado contrárias ao CPE, encontramos essencialmente sindicatos, partidos políticos e outras forças politizadas, para além das próprias associações estudantis. São quase residuais as intervenções de sectores apolíticos da sociedade civil contrárias a esta nova lei. Seria até interessante que alguém apurasse quantos ex-estudantes, já candidatos a um primeiro emprego, se vão contando por entre os inúmeros e empolgados participantes nas diversas manifestações que têm despertado por essa França fora.
Dever-nos-ia essencialmente atrair a questão do CPE francês pela enorme actualidade e “internacionalidade” de todas as circunstâncias que o envolvem. Se não, vejamos as similaridades com a presente realidade portuguesa:
1) França e Portugal possuem taxas de emprego efectivamente elevadas, com propensão clara para se agravarem ainda mais e sem nítidas perspectivas de datas e de formas que permitam a inversão natural de tais tendências;
2) Dentro da baixa empregabilidade em ambos os países, assume particular relevância a dos jovens e dos recém-licenciados, que mais apropriadamente se deveria designar por taxa de “ainda não emprego” em vez de taxa de desemprego;
3) Em Portugal e em França, encontramos das legislações laborais mais rígidas na protecção dos direitos do empregado, praticamente que consagrando a regalia de um trabalho vitalício, o que objectivamente dificulta de sobremaneira a vontade de empregar novos e muitos colaboradores;
4) As realidades conjunturais resultantes da globalização do comércio mundial tornam inevitável a aposta, por parte das empresas europeias, em vertentes de competitividade como a diferenciação, a investigação e a inovação, necessitando para tal, por isso, de intensificar a força de trabalho jovem, criativa e regenerada.
Enquanto “massa” exterior à agitação CPE que tem ocorrido em França, não me parecerá totalmente justo e esclarecido que possamos, como portugueses, manifestar uma opinião cabal sobre a justeza das decisões políticas tomadas pelo governo francês ou sobre a pertinência das críticas de que tem sido alvo, tanto mais que, por muito profundo que seja o conhecimento das propostas de lei e da própria história laboral francesa, não conseguimos ter vivido in loco certos pormenores mais sensíveis que a eles estão associados, nem temos forma de calibrar dinamicamente as informações veiculadas pela comunicação social com a nossa percepção directa sobre o pulsar dos agentes da sociedade. Mas, pelo óbvio paralelismo que este problema francês possui com problemas nossos, nem o bom senso nos impedirá de mostrar maior ou menor simpatia pelo espírito das soluções assumidas ou pelas posições de princípio antagónicas.
Correndo o risco de pecar por um sumarismo castrador, o que basicamente o governo Villepin pretende instituir é um mecanismo de incentivo à empregabilidade dos jovens, até aos 26 anos, à procura do seu primeiro emprego, socorrendo-se para tal da permissão de uma não-garantia absoluta da continuidade. Ou seja, mais cruamente, quer fazer passar às empresas a mensagem: “empreguem sem receio, experimentem e decidam caso a caso”. Será assim tão socialmente injusto propor uma solução nestes termos? Existem soluções legais semelhantes que tenham sido já postas em prática e que se tenham revelado como negativas para o emprego real e para as próprias causas sociais?
Em Portugal, por exemplo, os contratos de estágio profissional promovidos pelos Centro de Emprego do IEFP e o recém-criado programa Inov-Jovem possuem princípios idênticos e já provaram, muito claramente, terem sido das poucas iniciativas de efectivo sucesso na colocação de jovens no mercado de trabalho.
Por que razão se coloca a tónica na parte da desobrigação de vínculo permanente e não nas imensas oportunidades de emprego que tal medida corajosa gerará inquestionavelmente?
Não caiamos no erro de comparar as manifestações estudantis de Maio de 1968 com as de Março de 2006. Para além de gerações diferentes, as causas dos anos 60 eram de natureza completamente distinta, as motivações são agora de natureza puramente reactiva e não movidas por vagas da sociedade que encontraram nos estudantes seus porta-bandeiras. Aliás, nas organizações que se têm mostrado contrárias ao CPE, encontramos essencialmente sindicatos, partidos políticos e outras forças politizadas, para além das próprias associações estudantis. São quase residuais as intervenções de sectores apolíticos da sociedade civil contrárias a esta nova lei. Seria até interessante que alguém apurasse quantos ex-estudantes, já candidatos a um primeiro emprego, se vão contando por entre os inúmeros e empolgados participantes nas diversas manifestações que têm despertado por essa França fora.
quarta-feira, 22 de março de 2006
AINDA AS LEIS(BICAS)...
O episódio aparentemente “normal” da tentativa de casamento das duas já célebres lésbicas entreteve, irritou ou entusiasmou a opinião pública, como aliás desde as vésperas se antevia, quando alguém fez questão de abnegadamente anunciar à comunicação social que tal encontro viria a ocorrer numa Conservatória de Lisboa. Encontro mediático era claramente a intenção. Disso parece não restar dúvida a ninguém.
Mas o que faz entrar tamanha encenação nas auras da demagogia é a evocação da espontaneidade da iniciativa ou de que aquele singelo “casal” apenas se fazia acompanhar de um simples advogado, para além de um punhado de bons amigos. Demagogia não somente pelos presentes, envolvidos em movimentos de homossexuais e os que, qualquer que fosse a condição invocada no momento, têm ligação a forças políticas e afins. Mas porque tais comparências mais ou menos discretas não podem deixar de levar à interrogação (pode-se também ler especulação) de que influentes ausências também sejam responsáveis pela notícia.
Para além dos que genuinamente queriam ver o tema discutido, há que admitir que outros tenham contribuído para desviar o interesse da opinião pública de outras questões “quentes” que, recentemente, têm sido tão apreciadas ou apetecidas.
Mas já que muitos, nos quais me incluo, se deixaram envolver nesta “armadilha” noticiosa, e apesar de não poder haver imparcial cidadão de bom-senso que considere tal tema como de fundamental discussão para a nossa sociedade actual, comentemos também a pretensão que está na base do inusitado facto.
Respeito quem pretenda possuir os mesmos direitos e deveres inerentes a um contrato matrimonial, mesmo que o outro elemento do par seja do mesmo sexo. Assim como respeito quem entenda que a célula colectiva básica da sociedade, que designamos por família, só faça inteiro sentido se contiver auto-capacidade multiplicadora. E acho que tem muito mais substância, lógica e coerência esta última preocupação. Mas, no entanto, respeito muito mais a primeira, pelo mesmo motivo básico que considero que a liberalização do aborto será uma opção leviana se ou quando o Estado a assumir. Porque ao Estado cabe proteger a liberdade dos menos fortes e apenas nessa condição interferir com as liberdades dos demais cidadãos. E assim, da mesma forma que não concebo que se possa majorar o direito de opção de uma mulher grávida relativamente à possibilidade de um embrião seguir o seu caminho de vida, também não me parece legítimo que a tradição heterossexual se aproprie em exclusivo dos privilégios de uma união legitimada pelo Estado. Seja nos elementares aspectos jurídicos, patrimoniais, fiscais, testamentários ou na tendência para “normalizações” sociais em geral, essas mais dificilmente impostas por decreto.
Contudo, parece-me que a questão da adopção já deva ser encarada em termos relativos. É inegável que existirão “casais” de homossexuais que poderiam melhor educar e proporcionar uma qualidade de vida superior aos adoptados do que certos casais heterossexuais. Como também é indesmentível que uma criança se sentirá mais confortada socialmente em ter uma mãe e um pai adoptivos, do que dois pais ou duas mães adoptivos. Daí que pareceria razoável que a natureza da sexualidade do “casal” deva ser meramente encarada como um critério preferencial, tal como o são a estabilidade da relação, a idade dos pais adoptivos ou o seu nível económico.
Mas o facto de poder ser defensável que dois homossexuais vejam reconhecido pelo Estado um compromisso de vida conjunta, e mesmo que este lhes atribua exactamente os mesmos privilégios que a dois heterossexuais, não implica necessariamente que tal união tenha o rótulo de “casamento”. A aceitação da diferença não tem forçosamente que se estender até ao limite do uso da mesma e exacta terminologia, como aliás sucede em Inglaterra e nos vários países escandinavos. Aí, entramos já no campo do respeito pela maioria. Persistir na recusa em utilizar expressões alternativas como “emparelhamento”, “acasalamento”, “união de vida”, “união de facto” ou outra qualquer que se possa ajustar, pode até ser entendida como uma postura provocatória. Só com atitudes de respeito pelas maiorias, começando por evitar o simples dar a mão no autocarro, podem pretender as minorias ser igualmente respeitadas.
Há leis difíceis, mas o respeito ainda é mais difícil de legislar
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